FUTEBOL PARAENSE: DAS GLÓRIAS À INFÂMIA

10/10/2014

Victor Barra

De caçadores à presas fáceis, esse é o parâmetro da constante do futebol paraense, na última década. Todo o respeito construído no passado vem sendo destruído a cada ano como consequência de campanhas medíocres em competições nacionais. Os torcedores paraenses ainda procuram entender o verdadeiro motivo dessa tremenda decadência.

A virada do século XXI apresentava-se com os três principais times do estado, Paysandu, Clube do Remo e Tuna Luso, na segunda divisão nacional, juntamente com outros clubes conhecidos do país, como Ceará, Paraná, Avaí e Figueirense. Em 2001, o Paysandu conquistou o seu segundo título da Série B fazendo uma campanha impecável, botando novamente o futebol paraense na elite do futebol brasileiro. No ano seguinte, o Papão da Curuzú levantou a taça de campeão da Copa dos Campeões, passando por grandes clubes, como Palmeiras e Cruzeiro, se credenciando para disputar a Libertadores da América de 2003, principal competição do continente. Seria a primeira vez em que um clube do norte disputaria uma competição continental. Com altos investimentos, a Libertadores foi totalmente rentável para os cofres do clube, porém um escândalo envolvendo a SUDAM e o presidente do clube na época, Artur Tourinho, botou em cheque a autenticidade dos triunfos.

Na Libertadores, as expectativas estavam em cima de Robson “Robgol”, Vélber, Sandro Goiano, Iarley, dentre outros. O clube terminou a primeira fase na liderança do grupo e manteve sua invencibilidade, obtendo a vantagem de decidir em casa a vaga para as quartas de finais, jogando em casa a segunda partida. Na primeira partida das oitavas, o time paraense visitou o temido Boca Júniors, que jogando dentro de casa mantinha um amplo favoritismo, levando em consideração a dificuldade apresentada para os adversários no estádio La Bombonera. Até então, apenas dois clubes brasileiros haviam vencido ali, Santos e Cruzeiro. Iarley marcou o único gol daquela brilhante noite dos paraenses, dando uma vantagem ainda maior para o Papão, que precisaria apenas de um empate no jogo de volta para avançar de fase. Foi o ápice do futebol paraense, chegando o mais longe possível, um feito bastante reconhecido no mundo futebolístico. Infelizmente, na partida de volta, o bicolor estadual acabou perdendo por 4-2, vivendo uma noite de eliminação frustrada diante de um Mangueirão lotado, em pleno período de greve rodoviária. Encerrava-se ali a melhor temporada do Paysandu e do futebol paraense.

Na Série A, o clube fazia campanhas regulares, mas após a saída de Tourinho da presidência, as dívidas dificultaram as negociações e não mantiveram a mesma qualidade de investimento. Prova disso, o rebaixamento em 2005 para a Série B e em 2006 para a Série C, aonde ainda se encontra, mesmo após breve retorno à Série B em 2013. Nesse mesmo período de descenso, em 2005, o Clube do Remo conseguira voltar à segunda divisão, carregando nas costas o seu primeiro título nacional, a Série C no ano de seu centenário, tendo a melhor média de público entre as três divisões do Brasil.

O futebol paraense se manteve na Série B, com o Clube do Remo, por mais dois anos e posteriormente sucumbiu para a Série C, a última divisão. Em 2008, a CBF anunciou a criação da quarta divisão, que teria sua primeira edição realizada em 2009. Três times paraenses disputaram a terceira divisão daquele ano, Paysandu, Remo e Águia, time do interior, que chegou ao vice-campeonato estadual, garantindo sua vaga no brasileiro. Curiosamente, apenas o time de Marabá disputou a última fase da competição, ficando à um gol do acesso. Enquanto isso, o Clube do Remo caia para a Série D e o Paysandu ficara na Série C.

Com sucessivos fracassos, os grandes paraenses começaram a perder sua identidade e mergulharam em crises financeiras, dirigentes mal intencionados, sugando os poucos lucros obtidos. A última conquista nacional do Pará veio através do São Raimundo de Santarém, em 2009, justamente na primeira edição da Série D. O time santareno oscilou rapidamente, e no ano seguinte retornou à última divisão, onde nem lá se encontra mais. O Paysandu ainda retornou para a Série B, em 2013, como dito antes, mas foi rebaixado precocemente, frustrando novamente o torcedor bicolor e a imprensa que imaginavam o forte retorno do futebol paraense no cenário nacional.

Dois times do interior conquistaram pela primeira vez o campeonato paraense em dois anos consecutivos. Independente em 2011 e Cametá em 2012. A estática dos dirigentes causou o declínio das safras de contratações, igualando os clubes da capital com os do interior. De fato, a cada ano, um time do interior sempre se destaca e bate de frente com os maiores já não tão maiores assim. O estadual se tornou mais equilibrado? Existem controvérsias, críticas e opiniões diferentes sobre a questão. Muitos apoiam a crescente dos emergentes, enquanto outros defendem a hegemonia da dupla Re-Pa, mesmo encontrando-se adormecidos no cenário brasileiro. Por que não investir na base? A falta de um centro de treinamento é fundamental para a solução desse problema. Não existe um acompanhamento adequado com os jovens prodígios. Ou são exportados ainda jovens ou não ganham chances no time profissional, depois somos notificados de que aquele jogador despontou. O caso mais recente é de Paulo Henrique Ganso, atual meio-campo do São Paulo.

Por que não apostar nos jogadores oriundos do estado? Das poucas conquistas, os clubes eram compostos por peças paraenses, sem a necessidade de importar atletas de outros estados. O futebol do Pará precisa passar por uma reformulação em sua gerência, começando pela sua federação responsável. Nos planos também estariam o afastamento dos gananciosos de poder nos clubes, para enfim retornar às primeiras divisões nacionais. Deve haver uma cabeça pensante dentro das instituições, onde contratação é ação de vida ou morte, contratar apenas jogadores de valor e não para compor elenco. Tragicamente, os clubes não detém um bom status no mercado de transferências.

Quem sofre é o torcedor, amargando campanhas vergonhosas e vendo o clube nas últimas divisões. Acostumados com momentos de glórias, a esperança nunca morre. Apesar de tudo isso, ele não abandona o seu clube, lota os estádios e é quem realmente ainda sustenta o futebol paraense. No primeiro semestre, o clássico Re-Pa obtém uma média de público maior de que diversos clássicos. O torcedor paraense é apaixonado por futebol e está cansado de sofrer. Até quando isso continuará acontecendo? A expectativa é de que um dia tudo volte ao normal. Em meio à tudo isso, Paysandu e Águia se mantém na Série C, Clube do Remo briga para voltar à Série C, Tuna Luso, detentora de dois títulos brasileiros (segunda e terceira divisão) pretende retornar à elite do futebol paraense, e os demais clubes visam o estadual de 2015.

Texto: Victor Barra

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