A mulher no futebol brasileiro: uma ampla visão **

09/07/2016

Sucesso não é acidente. É trabalho duro,

perseverança, sacrifício e, acima de tudo, amor

pelo o que você faz ou está aprendendo a fazer.

(Célia Venâncio, Técnica do Traíras Futebol Pelada,

bicampeão da Copa Domingão)

O universo do futebol é caracterizado desde sua origem, como um espaço eminentemente masculino. Segundo Fábio Franzini (2005), Como esse espaço não é apenas esportivo, mas também sociocultural, os valores nele embutidos e dele derivados estabelecem limites que, embora nem sempre tão claros, devem ser observados para a perfeita manutenção da ‘ordem’, ou da ‘lógica’, que se atribui ao jogo e que nele se espera ver confirmada. A entrada das mulheres em “campo”, seja com chuteiras ou não, subvertem tal ordem, e as reações daí decorrentes expressam muito bem as relações de gênero presentes em cada sociedade: quanto mais machista, ou sexista, ela for, mais exacerbadas as suas réplicas.

Por certo, são os preconceitos historicamente construídos pela e na nossa cultura, alguns dos elementos que fazem com que essa questão, vez por outra, apareça na atualidade. A virilidade virtuosa do esporte é frequentemente ressaltada pela sentença “futebol é coisa para macho” (ou, em uma versão pouco menos rude, “coisa para homem”), bem como em tiradas reveladoras de vivo preconceito. O jornalista Sérgio Cabral conta que, perguntado certa vez sobre o que achava do futebol feminino, o saudoso comentarista esportivo e ex-técnico João Saldanha disse ser contra — e justificou, com sua língua ferina: “Imagina, o cara tem um filho, aí o filho arranja uma namorada, apresenta a namorada ao sogro e o sogro pergunta a ela: ‘O que você faz, minha filha?’ E a mocinha responde: ‘Sou técnica de um time de futebol’. Quer dizer, não pega bem, não é?”. 

Mesmo as mais recentes tentativas oficiais de incentivo ao futebol feminino no Brasil escorregam no machismo característico de nossa cultura, pois condicionam seu sucesso a “ações que enalteçam a beleza e a sensualidade da mulher para atrair o público masculino”. Ou seja, calções minúsculos, maquiagem e longos cabelos, presos em rabos-de-cavalo.

Frente a tais posturas e práticas, não se surpreende que as mulheres não sejam vistas como mais um sujeito da história do futebol brasileiro, e que a participação delas cada vez mais frequente, seja um tema praticamente inexistente quando se fala sobre a trajetória do chamado “esporte bretão” em nosso país.

No entanto, contrariando toda essa “lógica” é que foi sob a gestão, principalmente, mas, também sob o comando técnico de uma destemida mulher, é que o TRAÍRAS FUTEBOL PELADA chegou à sua segunda conquista da COPA DOMINGÃO, tendo à frente a obstinada Célia Venâncio, uma jovem de 21 anos, que só se queixa da falta de comprometimento dos marmanjos quanto a assiduidade e pontualidade, e considera o técnico da Seleção Brasileira, Tite, como uma referência e estilo que a influencia.

Enfim, mesmo mostrando a sua capacidade, a mulher ainda busca afirmação dentro ou fora das quatro linhas do gramado, entretanto, a distância para o justo reconhecimento está cada vez menor.

Autor: Jáder Pantoja

* O título da coluna é uma homenagem ao saudoso jornalista e cronista esportivo do Brasil, Armando Nogueira, autor do livro homônimo.

** Adaptado do trabalho acadêmico de Ramon Missias Moreira, Discente do VI período do Curso de Educação Física da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB (Brasil).

Deixe uma resposta

Você precisar fazer login para comentar.